Síndico é preso após morte de corretora em Goiás; caso expõe abusos em gestão condominial

Conflito por administração de imóveis evoluiu para perseguições, cortes de serviços e terminou em homicídio, segundo investigações

O assassinato da corretora de imóveis Daiane Alves, em Caldas Novas (GO), revelou um grave caso de abuso de poder dentro de um condomínio residencial e reacendeu o debate sobre os limites da atuação de síndicos no Brasil. O principal suspeito, que exercia a função de síndico do prédio, confessou o crime após o corpo da vítima ser encontrado em janeiro de 2026.

Daiane havia desaparecido em dezembro de 2025, depois de ir ao subsolo do edifício para verificar uma queda de energia. De acordo com o Ministério Público, antes do homicídio, ela já vinha sofrendo uma série de perseguições e retaliações, o que levou à denúncia do síndico pelo crime de stalking, com agravante de abuso de função.

As investigações apontam que, por anos, o síndico concentrou ilegalmente a administração dos aluguéis dos imóveis do condomínio, prática aceita de forma informal pelos moradores. Na prática, ele atuava como corretor exclusivo, criando regras próprias e extrapolando suas atribuições legais.

O conflito teve início quando Daiane decidiu administrar os imóveis da família sem a intermediação do gestor. A partir disso, segundo relatos apurados, passaram a ocorrer notificações e multas consideradas irregulares, invasão de unidade, cortes de serviços essenciais como energia e água, além de tentativas de expulsão da moradora e perseguição constante.

Especialistas em direito condominial apontam que o caso é um exemplo extremo de uma realidade mais comum do que se imagina: síndicos que utilizam o cargo para exercer controle pessoal sobre moradores, adotando medidas ilegais como restrição de áreas comuns, sanções sem respaldo em assembleia e interrupção de serviços básicos, práticas proibidas pela legislação.

O episódio também desmonta o chamado “mito do síndico rei”, figura que se coloca acima das normas internas e da lei, muitas vezes sustentada pela omissão dos condôminos e pela falta de informação sobre direitos e deveres dentro dos condomínios.

O caso de Daiane Alves evidencia como conflitos aparentemente administrativos podem escalar quando irregularidades são toleradas e limites legais não são respeitados, transformando a função de gestor em instrumento de retaliação e abuso de poder.

*Texto realizado em parceria com a Drª Ana Beatriz Sitta, especialista em Direito Imobiliário e Condominial.

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